Uma visita a Fidel Castro

Meus sentimentos em relação a Cuba têm sido ambíguos nas últimas décadas. Além de sabê-lo pela imprensa, descobri por meio de pessoas de cinema que trabalharam por lá que a sociedade cubana sob o governo Batista era corrupta até não mais poder, um parque de diversões da máfia, um bordel para americanos e outros estrangeiros.
Assim, o fato de Fidel Castro ter aberto caminho até o poder à força parecia ser um vento fresco varrendo para longe a degradação e a subserviência ao dólar ianque. O que emergiu, depois de toda a fumaça se esvair no ar, se converteu em algo diferente, é claro, e, se optei por não esquecer os motivos que levaram à revolução de Fidel, a repressão movida por seu governo de um homem só nem por isso deixou de corroer minha simpatia por seu regime.
Ao mesmo tempo, o implacável bloqueio americano empreendido a pedido, ao que parecia, de uma classe derrotada de exploradores, parecia ser algo diferente de uma resistência democrática baseada em princípios. O ponto focal dessas contradições todas era o próprio Fidel; esse homem era, de fato, a própria Cuba. Mas, quando minha mulher, a fotógrafa Inge Morath, e eu fomos convidados, em março de 2000, para integrar um pequeno grupo de ""visitantes culturais" numa viagem breve à ilha, partimos sem qualquer idéia de termos algum encontro com o Líder, ele próprio, e sim pensando apenas em conhecer um pouco do país.
O que acabou por acontecer foi que, pouco após nossa chegada, ele convidou nosso grupinho de nove pessoas para jantar e, no dia seguinte, apareceu de repente, no lugar onde estávamos almoçando, na zona rural, para continuar a conversa. Em março de 2000, quando aconteceu nosso encontro, o futuro de Cuba era a grande dúvida na cabeça de qualquer pessoa que pensasse sobre o país.
Nosso grupinho não era exceção. Além de minha mulher e eu, éramos William Luers, ex-diretor do Metropolitan Museum of Art, de Nova York, e sua mulher, Wendy, uma ativista dos direitos humanos; o romancista William Styron e sua mulher, Rose; o agente literário Morton Janklow e a mulher dele, Linda, e Patty Cisneros, organizadora filantropa de um grupo dedicado a salvar a cultura amazônica.
Prevendo apenas caminhar pela cidade e possivelmente nos encontrar com alguns escritores, ficamos surpresos, no segundo dia na ilha, com o convite recebido de Fidel para jantar com ele. Mais tarde, ficaria claro que ""Gabo" (Gabriel García Márquez), amigo e partidário de Fidel, tinha provavelmente sido o responsável por esse ato de hospitalidade.
Eu tinha enorme curiosidade sobre Fidel e, ao mesmo tempo, era um pouco cauteloso em minhas expectativas. Os líderes não-eleitos costumam ser incomumente sensíveis à contradição, e a companhia deles pode ser dolorosamente enfadonha. Mas Fidel já era uma figura mítica, e a perspectiva de passar uma ou duas horas com ele era algo a ser antecipado com interesse. Vou mencionar apenas duas ou três observações que fiz em Havana antes de nosso jantar. A cidade em si possui a beleza de uma ruína que está voltando a desfazer-se na areia, na mica, nas pedras e nas árvores das quais nasceu. A pobreza da população é evidente, mas, ao mesmo tempo, uma certa garra parece sobreviver.
Por pobres que sejam os cubanos, percebe-se muito pouco do clima de desesperança morta que se vê em tantas cidades onde a miséria >e a riqueza glamurosa convivem lado a lado. Mas tudo isso são aparências. Um guia com o qual topei não conseguiu esconder sua frustração quando explicou que trabalhava para um órgão de turismo do governo que cobrava alto dos clientes estrangeiros pelo serviços dele, enquanto ele próprio ganhava pouco.
Tendo passado anos protestando contra a repressão de dissidentes, eu me perguntei se uma espécie animadora de solidariedade não poderia ter sido gerada, possivelmente em razão da relativa simetria entre pobreza e a incapacidade generalizada do sistema. A pobreza se aproxima do catastrófico. Na mesma avenida que beira o porto, os faróis de trânsito são o sinal para uma dúzia de meninas e moças se aproximar dos carros. Elas não se vestem de maneira chamativa. Isso era proibido durante o domínio soviético.
Verdade seja dita, como chefe de uma simples ilha, Fidel conseguiu elevar-se até essa condição transcendental, na cabeça de milhões de pessoas. Teria sido demais esperar que, após metade de um século no poder, ele não tivesse se tornado até certo ponto um anacronismo, um relógio velho e bonito que já deixou de marcar o tempo com precisão e ressoa fora de hora, no meio da noite, perturbando a casa. Apesar de seus esforços, a única coisa que se assemelha a uma revolta dos pobres, hoje, é a antimoderna maré islâmica, que, desde um ponto de vista marxista, flutua num sonho medieval. Ideologias de lado, parece que Fidel conserva as ilusões que estruturaram seus sucessos políticos, mesmo que elas nunca tenham contido muita verdade. Até hoje, por exemplo, ele fala da dissolução da URSS como sendo desnecessária, ""um erro". Em suma, não existia nenhuma contradição inerente ao sistema soviético que tivesse provocado sua queda, e, portanto, não existe nada no sistema criado por Fidel Castro que esteja gerando a pobreza dolorosa da ilha. O embargo americano gerou a pobreza de Cuba diretamente, além dos russos, pelo fato de a terem abandonado. É Dom Quixote lançando-se contra moinhos de vento que, o que é ainda pior, já desabaram. A praça diante do hotel Santa Isabel é ladeada por 15 a 20 barracas de livros que oferecem à venda surrados exemplares de velhos tratados marxistas-leninistas que dois responsáveis enchem todas as manhãs e esvaziam todas as noites. É possível que alguém no governo imagine que pessoas em sã consciência sintam a tentação comprar, muito menos de ler, esses artefatos representativos de uma era passada? O que, indagamo-nos, ainda mantém tudo isso vivo? Será o amor patriótico dos cubanos -conformistas ou dissidentes- por seu país, ou o ódio maníaco e petrificado dos políticos americanos, cujo embargo simplesmente proporciona a Fidel uma apólice de seguro contra as mudanças necessárias, injetando na população a energia do desafio justo? Será preciso o patos de um novo Cervantes para superar essa história profundamente triste de sofrimento desnecessário.

Tradução: Clara Allain

Arthur Miller, 88, é um dos maiores dramaturgos americanos, autor de "A Morte do Caixeiro-Viajante"

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