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Olho Vivo
Híbrido de ‘Chiquititas’ e ‘Malhação’

Band aposta em fórmula batida, explorada à exaustão pelo
SBT; ‘Floribella’ tenta ser moderninha como a MTV
Divulgação
Diário OnLine
Novela é uma coisa engraçada. Engraçada, no sentido triste da palavra (se é que isso faz sentido). Já vi de tudo nesta vida, mas nada se iguala a “Floribella”, que a Band estreou segunda-feira, em horário nobre. Um híbrido de “Chiquititas” com “Malhação”, que pode até dar certo no Ibope, mas é um horror. Trata-se de uma versão brasileira de um grande sucesso argentino. Para dourar a pílula embalaram tudo num visual moderninho-ultrapassado, alguns porcos efeitos especiais e a uma edição rápida. O roteiro é uma titica, mas a fórmula, já conhecida, tem chances de funcionar. Mesmo que a impressão seja de um programa infanto-juvenil em horário errado.


O que mais irrita na novelinha não é a manjada história da menina pobre que se apaixona pelo cara bonito, rico, de coração duro e incapaz de viver um grande amor. Ou seja, o príncipe encantado da nova era. Isso tudo a gente já está acostumado a ver. Mas em “Floribella” a mensagem vem como se todos os telespectadores tivessem QI baixíssimo. Para a direção da Band, o público adolescente é incapaz de distinguir entre o que é apelo publicitário e apelação. Ao contrário de “Chiquititas”, que se assume infantil, e de “Malhação”, que deixa claro falar ao adolescente, “Floribella” não sabe a quem atacar. Ou melhor, atira para todos os lados, sem acertar ninguém. A novela tem vilãs de peça infantil, mas crianças e adolescentes contemporâneos. O resultado é estranho, muito estranho.


Depois de seis anos sem produzir novelas, esperava-se algo mais consistente da Band, não uma teledramaturgia infantilóide, como “Floribella”. Tudo bem, a trama já é sucesso na Argentina, mas o Brasil agora é sucursal daquele país? A novelinha se pretende alegre, colorida e traz uma linguagem que em alguns momentos lembra a MTV. Mas não tem nada de diferente, o recurso já foi usado e abusado em produções da Globo e até do SBT. O que poderia ser uma trama cheia de vida acaba soando como pastiche da emissora dos clipes. A autora, Cris Morena, parece estar perdida entre uma mistura infinita de influências, mas prova que assistiu a todos os capítulos de “Chiquititas”. Deve estar vendo também a reprise no canal do Homem do Baú.


A Band investiu cerca de US$ 5 milhões na novela e espera um bom retorno, principalmente em “merchandising”, é claro. Na Argentina, 70 produtos foram licenciados. No Brasil, o primeiro da lista é o tênis que a Flor (vivida pela atriz Juliana Silveira) usa o tempo todo. A novela, produzida em parceria com a RGB Entretainment e Cris Morena Group, repete o teor musical, como se isso fosse alguma novidade. “Chiquititas” está no ar de novo, lembrando a todos que isso é coisa do passado.


Flor trabalha como governanta em uma mansão com seis irmãos órfãos e tem uma banda formada por jovens da Travessa dos Beijos. Dizer que aquilo é uma banda é uma ofensa a qualquer grupinho de garagem do interior, mas... Tudo feito sob medida para sair do forno uma trilha sonora que será lançada no mês que vem pela Universal Music Brasil. O CD terá 12 faixas com músicas dançantes e românticas. A julgar pelo primeiro capítulo, tudo no estilo insuportável da Angélica de antigamente.


Para encarar o desafio de atuar, cantar e dançar, os atores que formam o grupo musical tiveram, antes do início da novela, “workshops” preparatórios para a gravação do CD. No ar fica difícil perceber isso. Todos cantam e dançam muito mal. Pesquisando na Internet a gente descobre que Juliana, hoje com 25 anos, trabalhou durante seis anos no programa da Angélica. Tá explicado, então, porque ela canta igualzinha à sua fonte de inspiração.


A previsão para a novelinha acabar é daqui a nove meses. Até lá, quem estiver acompanhando a trama já queimou todos seus neurônios. E isso não é maldade da minha parte não.

Cláudio Alcântara, claudioalcantara@pop.com.br

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