Olho Vivo Um ‘reality show’ peso-pesado
Programa deixa de ser ao vivo, agrada ao público, mas a mórbida filosofia da exclusão permanece a mesma Divulgação

Quando a gente pensa que a onda dos “reality shows” chegou ao fim, vem uma pancada. E, desta vez, peso-pesado. O incrível é que muita gente gosta, tanto que a estréia de “O Grande Perdedor”, no SBT, deixou a emissora de Silvio Santos em segundo lugar no Ibope, com média de 23 pontos de audiência e picos de 29, encostando na Globo, que marcou 30. É muita gente assistindo, uma vitória para o Homem do Baú. OK, tudo começou com ele, nessa mesma casa, agora reformada para os gordinhos. Silvio fez a festa na época da “Casa dos Artistas”, um programa que entrou para a história da televisão brasileira como o primeiro a derrubar o “Fantástico”. Passou pela concorrência como um rolo compressor, explorando uma fórmula de sucesso no exterior. O charme de “Casa dos Artistas” estava no fato de SS ter colocado em clausura um time de artistas de segundo time, gente como o hoje astro de filme pornô Alexandre Frota, o maluco do Supla e mais meia dúzia de gatos e gatas aspirantes à fama. Agora, a coisa é diferente: participantes gordos, muitos gordos, disputam o prêmio.
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No programa, 14 participantes, muitos deles considerados obesos mórbidos, fazem qualquer coisa para embolsar R$ 300 mil. Isso mesmo, o peso é maior mas a grana diminuiu. Pode? Aquele que chegar à final com a maior redução de peso será o vencedor. Os participantes foram divididos em duas equipes de sete pessoas cada uma. Supervisionados por médicos, uma nutricionista e professores de educação física, eles têm que perder peso e ganhar saúde seguindo dieta preestabelecida e fazendo muita ginástica. Semanalmente, as equipes são pesadas. Aquela que perder o menor peso terá que eliminar um de seus integrantes. No último programa, só restarão três finalistas. O grande vencedor do programa é na verdade “O Grande Perdedor” nesta competição em que dois treinadores e uma nutricionista ajudam os participantes a transformar seus corpos, saúde e vidas. Dito assim, parece uma coisa legal. SS já mudou as regras, como sempre faz, e o programa parece uma bagunça organizada.
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Não vejo muita diferença na coisa toda. A não ser o fato de que os participantes têm a chance de ganhar saúde. Isso é bem interessante. Mas a base de tudo permanece: a ideologia da exclusão. Os participantes são muito simpáticos, gordinhos que parecem felizes da vida. Tão felizes que aceitam uma dose de humilhação aqui, outra acolá, na tentativa de ficar rico. Mas não vou criticar isso, a vida tá difícil mesmo e todo mundo tem o direito de correr atrás de um pouco de conforto, uma grana que possibilite viver melhor. Os gordinhos não estão fazendo mal a ninguém, a não ser a si mesmos. Mas se suportam isso numa boa, não há mal algum. Será que suportam mesmo?
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O sucesso do programa começou pelas inscrições: mais de 30 mil pessoas acima do peso ideal em todo o Brasil. Quatorze deles foram selecionados para morar juntos na Casa. São duas equipes: a vermelha e a azul, com sete pessoas cada (quatro homens e três mulheres em uma e três homens e quatro mulheres na outra). No final de cada semana, eles têm que enfrentar a balança. O grupo que perde menos quilos é obrigado a eliminar um integrante de seu próprio time, da seguinte forma: cada participante traz dentro de uma bandeja tampada um cartão com o nome do colega que deseja que saia do programa. Esta escolha pode ser baseada em falta de afinidade ou falta de força de vontade do indicado para seguir a dieta e fazer os exercícios. Um horror!
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O time que perder mais peso no decorrer da semana também tem a possibilidade de perder um de seus integrantes. Isto porque aquele que perder menos quilos da equipe é automaticamente enviado para o paredão. Assim, a decisão fica nas mãos dos telespectadores, que votam por telefone ou pela Internet para escolher quem deve sair da Casa. Quando só restarem sete participantes no programa, as equipes são desmontadas e passa a ser cada um por si e Deus por todos até a grande final. Está tudo lá: intrigas, fofocas, desentendimentos, possíveis romances e muita bagunça.
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Pena que o programa não é mais ao vivo, aos domingos, como acontecia nas outras “Casas”. Tornava a coisa bem mais divertida. Mas, para quem gosta de “reality show”, o prato está cheio desta vez. Muito cheio. Cheio até demais.
• Cláudio Alcântara claudioalcantara@pop.com.br |