Olho Vivo Por que ‘América’ vai mal das pernas
Novela não tem o básico para conquistar: emoção; nem a saída do diretor deu jeito na confusão em horário nobre Divulgação

Cláudio Alcântara
Agora sim. Já deu tempo de mexerem em tudo, e posso comentar a lambança que anda acontecendo em “América”. Que a novela das oito, de autoria de Glória Perez, anda em crise, todo mundo sabe. O que algumas pessoas ainda não perceberam é que o folhetim não tem mais jeito. É preciso se conformar: “América” é um fracasso. Quando digo isso, refiro-me, claro, aos padrões de audiência lá pela emissora dos Marinho. A média de audiência pode até ser alta para as outras, mas, na Globo, 30, 40 pontos não significam nada para o horário nobre. A novela estreou bem, e parecia que Glória acertaria a mão mais uma vez. A mocinha, interpretada por Déborah Secco, tinha tudo para não ser uma pamonha. Mas se transformou numa. Daí culparam o coitado do diretor Jayme Monjardim. OK, ele estava se repetindo um pouco. Mas, sejamos justos: se vamos culpar alguém, este alguém é Glória.
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Diz a lenda que a autora tornou-se uma espécie de diretora informal de núcleo. Isso depois que Monjardim abandonou a trama global. A autora teria se reunido com diretores de gravações e discutido as primeiras mudanças na história. O que Glória queria era mudar o formato que vinha sendo dado à trama. Reescreveu e mandou regravar algumas cenas. Não adiantou muito.
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Mexeu na música-tema do casal protagonista, Sol (Déborah Secco, coitada, perdidinha em cena) e Tião (Murilo Benício, pobrezinho, um ótimo ator jogado num personagem sem qualquer verdade). “Sinfonia dos Sonhos”, de Marcus Vianna, parceiro de Monjardim, dançou. Tudo bem, a música é muito parecida com o tema dos protagonistas de “O Clone”, que também é de Vianna, e que já era um porre. Glória também implicou com a abertura da novela, muito parecida com a música de “Pantanal”, novela exibida pela falecida Manchete e que a qualquer momento pode dar o ar da graça no SBT. Dizem que Glória, louca como sempre, apostava em “Soy Loco Por Ti, América”, na voz de Ivete Sangalo. Desejo cumprido. Ficou um horror. Bem pior do que antes. Ivete cantando “Soy Loco...” só pode ser piada. E de mau gosto. Mas...
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Não satisfeita, assassinou os “takes” do Pantanal mato-grossense. Era o que de mais bonito tinha a novela. Aí mirou suas artilharia para Déborah Secco. Dá pena da protagonista. Déborah já provou que é boa atriz, mas a personagem é muito fraca. Não tem sustentação. As lágrimas no rosto de Sol e o jeito sussurrado de ela falar foram trocados por uma Sol mais alegre, forte, jovial e menos sofredora. Nem tanto assim. Não adiantou. O problema não está com o diretor, não está com a atriz, não está na parte técnica. O problema está com quem escreve. Escreve mal. Está fazendo uma novela sem aquilo que o público mais gosta: emoção.
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Parece que Glória vai apelar, fazendo o gay da trama se apaixonar pelo peão protagonista. Se fizer isso, vai errar de novo. O público não vai aceitar, tenho quase certeza disso. Seria mais interessante se o personagem homossexual se envolvesse com outro peão, secundário na trama. Assim como já fizeram em outras novelas. Por mais aberto a novidades, o público não está preparado para ver em horário nobre o mocinho da trama apaixonado por outro homem. Mas isso é assunto para outro dia.
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Parte do fracasso de “América” se deve também ao sucesso da reprise de “Xica da Silva”, no SBT. As duas novelas praticamente disputam o mesmo público. O Homem do Baú, por incrível que pareça, acertou ao comprar as fitas da extinta Manchete e exibi-las em horário nobre. A audiência, para o padrão do SBT no horário, é um sucesso. Triplicou. E Xica roubou telespectadores da Globo, não há a menor dúvida.
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Talvez, para que “América” dê uma guinada, não seja preciso apelar para o amor entre iguais. Que tal trocar a autora?
claudioalcantara@pop.com.br |