Câncer tem tratamento gratuito no município

Descobrindo sabores

Extorsão por telefone deixa população da região assustada

Memória de papel

Novos ares no comércio

Professora trabalha auto-estima de alunos com exercícios físicos

Visite o Diário em
tempo real
para ler
as últimas notícias

Memória de papel

Historiadora resgata em livro memória da imprensa de Resende

Reprodução
Diário OnLine
‘O Sorriso’: Jornal dedicado às mulheres era
escrito à mão

Luis Cláudio Hermógenes
Resende


Se algum dia você ouvir dizer que a história da imprensa de Resende se confunde com a memória da cidade, fique certo de que não se trata de um mero chavão - daqueles que estamos acostumados a ouvir a cada esquina, a todo instante. A imprensa local é, de fato, um rico capítulo da história do município, como retrata a jornalista e escritora Maria Celina Whately no livro “Crônica dos duzentos anos” (2001), publicado pela Academia Resendense de História (ARDHIS). Através da obra, ela lembra que os primeiros jornais de Resende começaram a aparecer precocemente, em 1830, num período de plena efervescência política no país, recém-separado de Portugal. Foi quando surgiu, no final do século XIX, o jornal Gênio Brasileiro, segundo Celina “uma espécie de pasquim liberal, de oposição veemente e acirrada às ações autoritárias do imperador D. Pedro I”.
- O Gênio foi o primeiro jornal não só de Resende, mas também de todo o Vale do Paraíba. Foi lançado pelo padre José Marques, um homem que trabalhou muito para que a então Vila de Resende fosse elevada à categoria de cidade. No interior do estado do Rio, antes do Gênio só houve um outro jornal, o Echo, de Niterói, criado em 1829. Aí, depois do Gênio Brasileiro, tivemos o Echo Constitucional, que circulou de 1837 a 1843, retratando inclusive a participação de resendenses na política nacional - conta Celina.

Período fértil

Na avaliação da escritora, além do surgimento prematuro, comparando-se ao interior fluminense, a imprensa de Resende também marcou época pela produção intensa de semanários, embora tenha havido um inexplicável hiato entre 1843 e 1863. “Este silêncio, porém, foi rompido no ano seguinte com o jornal Astro Resendense, que durou até 1873, período considerado o mais fértil da época”. No encalço do Astro vieram O Resendense (1874 a 1888) e O Itatiaya (1876 a 1890), que também marcaram época”
A partir daí, conta Celina, houve uma verdadeira explosão de jornais pela cidade, quando mais de 30 chegaram a circular. Alguns deles trazendo insólitos títulos como Galhofeiro (humorístico, de 1889); Garatuja (caricatural, de 1889 a 1891); Chaleirinha (de mexericos, de 1909), O Beijo (dedicado à mulher, de 1889 a1900) e Japecanga (farmacêutico, de 1906 a 1908).
- E nesta leva surgiu também o Tymburibá, em 1881, com uma longa duração, até 1936, que a nosso ver representou um período de transição dos pasquins à nova imprensa do século XX. Naquele período, a propaganda e a dependência em relação aos anunciantes aparecem, misturando-se com o uso da gravura e da caricatura, começando a ceder espaço para informações noticiosas - explica.
A imprensa alternativa, hoje representada pelo Ponte Velha, de Gustavo Praça, no início do século XIX dava o ar de sua graça através do jornal O Sorriso, uma insólita publicação manuscrita, feita por três jovens moradoras da localidade de Capelinha - Francisca J. Silva, Helena Amanda e Júlia Lopes. Segundo conta o jornalista Gustavo Praça, em crônica publicada pela ARDHIS, “as editoras passavam horas copiando à mão cada exemplar, que era vendido através de assinaturas.

Divisor de águas

Quando, na virada do século XIX, a Corporação Musical Santa Cecília criou um simples informativo, mal poderia imaginar que nascia ali aquele que até hoje é considerado o mais importante e influente jornal da história da cidade, A Lira. Órgão que atravessou todo o século XX, tendo sua última edição no ano 2000, um verdadeiro divisor de águas na imprensa de Resende. Celina, ex-editora do jornal no final dos anos 70, lamenta a dificuldade de reconstruir a história da Lira, uma vez que parte do arquivo foi destruído por um incêndio na década de 60.
- E o que restou do acidente e da própria ação do tempo não recompõe totalmente o quadro de épocas e fases deste que, até sair de circulação, era o quarto mais antigo jornal de todo o interior fluminense. Ainda assim, peças de tempos diferentes esboçam traços da vida da Lira que nada mais são do que traços da vida de Resende - frisa Celina.
Em “Crônicas dos Duzentos anos”, escrito para celebrar o bi-centenário de Resende, a historiadora faz, nas páginas destinadas à imprensa, uma rápida passagem pelos demais veículos de comunicação impressa surgidos a partir das décadas seguintes, até os nossos dias. Entre eles, os extintos Jornal de Resende (1978 a 1992), Folha Regional (1991) e Revista Aciar (1985 a 1990). “Estamos agora reunindo mais informações para compor este material inicial que utilizei em recente palestra sobre a imprensa de Resende, apresentado a estudantes da Universidade de Taubaté (Unitau), a convite do Instituto de Estudos do Vale do Paraíba”, diz.
Carioca, Celina Whately é membro da Academia Resendense de História. Há 25 anos deixou a capital para vir a Resende pesquisar sobre o período de ouro do café - tema de um de seus livros - e nunca mais voltou. “Acabei me apaixonando pela região”, cita. Ex-funcionária do Centro de Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, no Rio, ressalta a grande diferença entre o jornalismo praticado na cidade ontem e hoje. “No século XIX a imprensa atuava de forma mais vibrante, questionadora, quando eram comuns os debates envolvendo as grandes questões sociais. Atualmente, encontra-se bem modificada, uma pena”, lamenta.

< Alto >


© Empresa Jornalística Diário do Vale Ltda. Todos os direitos reservados