Olho Vivo Latino está de volta ao sucesso
Depois de ‘Festa no Apê’, cantor emplaca ‘Renata’, chiclete musical que gruda e tem inúmeras contra-indicações Divulgação

Cláudio Alcântara
Sai “Hoje é festa lá no meu apê / Pode aparecer / Vai rolar bunda-lê-lê”... entra “Renata ingrata, trocou meu amor por uma ilusão / Renata ingrata, quem planta sacanagem, colhe solidão”. Latino está de volta. Sim, o público anda aprovando suas recentes investidas pelo mundo do arte (se é que podemos definir aquilo que ele faz de arte). Tudo bem, ele precisa ganhar dinheiro, como todos nós. Mas nós não precisamos deixar que façam esse tipo de lavagem cerebral sem tentar resistir. “Renata” foi pinçada do CD “As Aventuras do DJ L.”, uma obra-prima do descartável. Um disco que fala de sexo, amor e traição, mas de uma maneira acéfala. Chega a ser engraçado, de tão ruim.
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Infelizmente, é um sucesso. “Festa no Apê”, do mesmo disco, fez tanto sucesso, mas tanto sucesso, que se transformou não só numa das músicas mais tocadas nas rádios brasileiras como nas baladas e nos celulares. É que, segundo “ranking” do Selig, a música foi a quinta mais baixada do País. Um absurdo que está se repetindo com a tal “Renata”, um primor de letra. Usei a palavra primor para tentar ficar no mesmo nível do Latino, um cara esperto que só ele.
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A letra da canção diz o seguinte: “Num golpe de olhar / Ganhou meu coração / Mas eu não imaginava a decepção / Por ela fui fiel / Tão cego eu fiquei / Ir no night-futebol amigos eu deixei / Foi irracional o que ela fez / Mas vou deletar / Sua insensatez / Renata ingrata, trocou meu amor por uma ilusão / Renata ingrata, quem planta sacanagem, colhe solidão”. Como se percebe, foi escrita por quem foi traído. Diz a lenda tratar-se de uma história verídica, acontecida com um amigo dele. Sei não. Acho que tem mais a cara do próprio intérprete, acostumado a coisas assim, com sua ex-Kelly Key.
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Veja se não tenho razão. “Até pra namorar a bela foi atriz / Fingindo que eu era o que ela sempre quis / A lua entristeceu, o céu mudou de cor / Renata foi embora e a deprê ficou / Foi irracional o que ela fez / Mas vou deletar / Sua insensatez / Renata ingrata, trocou meu amor por uma ilusão / Renata ingrata, quem planta sacanagem colhe solidão”, canta Latino, entusiasmadíssimo, numa versão ao vivo que rola por aí.
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Pesquisando, a gente descobre pérolas ditas pelo cantor para promover o disco. Como, por exemplo, ele jura que o disco traz outras histórias verídicas transformadas em “hits” dançantes, como “Renata”, assinada por ele próprio e Dalmo Beloti. Não sei o que pode estar acontecendo com o gosto popular. Há quem culpe a mídia por isso, mas tenho cá minhas dúvidas. Não há mídia capaz de obrigar alguém a gostar de algo para o qual não tenha uma quedinha. As pessoas devem se identificar de alguma forma com a arte de Latino. É a única explicação.
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Assim como detesto funk, não há nada na face da Terra que me faça gostar de Latino. Aliás, é impressionante o que está acontecendo com o funk. Até locais tidos como alternativos estão se rendendo a essa praga musical. Outro dia, num barzinho/boate de Volta Redonda, considerado “underground” tiveram a cara-de-pau de tocar uma seqüência de uma hora só de funk. O pior: a maioria que estava lá se esbaldou ao som de letras da pior espécie. Claro, houve resistência. E alguns poucos se retiraram da pista de dança, entre os quais eu me incluía.
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Resistir é possível, sim. Se você permite, logo o funk, Latino, Tati sei lá das quantas e similares estão dominando seu senso crítico. E não demora muito você está achando tudo muito interessante. É aí que mora o perigo.
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A “Renata” do Latino é um desses fenômenos que passam sem deixar lembranças. Espero. O problema é que coisas desse tipo têm total apoio de boa parte da mídia, gente até com uma certa bagagem cultural. Daí fica difícil remar contra a maré. Mas a gente rema, né não?
• claudioalcantara@pop.com.br |