MST invade fazenda histórica
Sem-terra de Volta Redonda, Barra do Piraí, Valença, Rio e Nova Iguaçu estão acampados em frente à fazenda d 1817
Felipe de Souza
 Dividido: Sem-terra já começaram a montar barracas d plástico em frente à sede da fazenda, em Valença Valença
Já chega a 100 o número de famílias que estão num acampamento do MST iniciado domingo, na Fazenda São Paulo, de 1.570 hectares, entre o distrito de Conservatória e a localidade de Coronel Cardoso, junto à divisa com Minas Gerais. A ocupação começou com a chegada de 50 famílias, quando ocorreu o primeiro desentendimento entre os empregados das fazendas vizinhas, que fecharam a estrada tentando impedir a passagem de dois ônibus e um caminhão transportando os sem-terra. Os policiais do 10º BPM (Barra do Piraí) desobstruíram a passagem e estão protegendo a casa-grande da fazenda, construída em 1817, uma das mais ricas do Ciclo do Café, onde foi montado o acampamento.
A fazenda foi desapropriada no dia 17 de junho passado, por um decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, declarando a propriedade de “interesse social para fins de reforma agrária”, excluindo apenas as máquinas e os equipamentos. Vendida em 1990 para uma empresa paulista, a casa-grande, que estava desabitada desde 1915, vinha sendo recuperada depois de perder algumas paredes e parte do telhado. Também estavam sendo recuperados a senzala, terreiro de café e o salão de festa.
A fazenda foi construída por Antônio Joaquim Fortes de Bustamante, filho de uma família dona de minas de ouro e terras, em São João Del Rei, em Minas Gerais. Ele chegou a ter 176 escravos, e mais de um milhão de pés de café, feijão e arroz. A ocupação passou a preocupar os donos das fazendas próximas, como Antônio Evaristo Duque, de 60 anos. Ele é dono da Fazenda Santa Tereza, de 39 hectares.
- Os sem-terra vão passar necessidade e morrer de fome. Eu, por exemplo, não tenho sequer condição de tocar a fazenda. Hoje, o produtor não tem condição de contratar empregado. O que ganho só dá para sobreviver com meus sete filhos. A única escola daqui fica fechada de três a quatro meses por ano, no período das chuvas, por falta de estrada - disse.
Segundo os coordenadores do MST que se encontram no acampamento, a Fazenda São Paulo está em nome de Élvio Divanir, que mantém nas terras 600 cabeças de gado, leiteiro e de corte. Até no final da semana, as famílias concluem as acomodações e iniciam o plantio de feijão, arroz, milho e hortaliças. A alimentação e agasalhos estão sendo enviados por organizações católicas e sindicatos. Agora as famílias esperam que o projeto de assentamento seja agilizado.
OUTRAS - Com a ocupação da São Paulo, sobe para quatro as fazendas ocupadas pelo MST no Sul Fluminense, em pouco mais de um ano. Primeiro foi a Fazenda Vargas, de 800 hectares, também em Valença; a Aymorés, de 849 hectares, em Piraí, e a Estrela D’alva, de 910 hectares, em Ipiabas, distrito de Barra do Piraí. |