Olho Vivo Eloir Xavier brilha em ‘Dom Quixote’
Livre adaptação do Ballet Arteviva ainda tem como destaque Marcelle Lopes; Marius Petipa renasce na região Divulgação

Cláudio Alcântara
Nem os problemas de última hora tiraram o brilho de “Dom Quixote”, espetáculo apresentado pelo Ballet Arteviva, no Sesc (Serviço Social do Comércio) de Barra Mansa. Pequenos deslizes não ofuscaram o potencial deste balé baseado na obra homônima de Miguel de Cervantes (1547-1616). OK, grande parte dos méritos é do coreógrafo Marius Petipa (1818-1910), aquele que derreteu a frieza do cenário artístico russo. Isso em pleno 1869, quando quem ditavam as regras eram os balés românticos. Mas o que encanta o público nesta modesta versão do Arteviva é o potencial de cada bailarino. Destaques para Eloir Xavier como Basílio e Marcelle Lopes (Quitéria), pelo menos é o nome que consta no programa. Xavier já conheço de outros espetáculos, e Marcelle é igualmente talentosa. Tem potencial técnico e forte presença cênica.
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No palco, tudo é muito vibrante. Pouco se vê de cores claras. Muito pelo contrário, há espaço para vermelho, preto e amarelo em grandes quantidades. Muitos leques e passos ágeis. É a alegria hispânica transpirando de cada poro. Estão todos muito bem ensaiados, com uma ou outra exceção (talvez, pelo fato de na apresentação do dia 3 alguns terem sido substituídos de última hora). Nada que o público não perdoe, como o pequeno acidente no primeiro ato, quando um dos bailarinos deixou sua companheira cair. Bobagem.
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Eloir Xavier logo entra em cena, domina tudo e apaga o pequeno escorregão do companheiro. Os olhos se voltam para ele. Domínio pleno do que faz.
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O balé “Dom Quixote”, o original, tem prólogo, quatro atos e oito cenas. O libreto é de Marius Petipa, baseado na novela de Miguel de Cervantes. A coreografia também é de Marius Petipa. Para quem não sabe, é uma livre adaptação para a novela de Cervantes. Relembrando: Dom Quixote tem um fiel escudeiro, Sancho Pança; Quixote é um “louco” que vive às últimas conseqüências a aventura de se tornar cavaleiro.
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O primeiro ato se passa na praça do mercado, em Barcelona. Lá, Quitéria está sendo obrigada por seu pai a aceitar a corte do rico comerciante Gamache, que deseja casar-se com ela. Quitéria reluta, pois está apaixonada pelo barbeiro Basílio.
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Ao contrário do que sugere o título, é o amor entre Quitéria e Basílio que dá o tom ao espetáculo. Dom Quixote, neste caso, é mero coadjuvante. Ele chega à praça e presencia a cena. Logo transforma Quitéria (na imaginação) na suave Dulcinéia, personagem dos seus sonhos, símbolo da mulher ideal. Há alguns momentos de comicidade no balé, quebrando um pouco o tom melancólico do personagem.
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O espetáculo prossegue. Basílio, desesperado ante a perspectiva do casamento de Quitéria com Gamache, encena o próprio suicídio e, fingindo agonizar, pede ao pai de Quitéria que satisfaça seu último desejo, concedendo-lhe a mão de Quitéria em casamento. O pai consente e Basílio, para espanto geral, levanta-se radiante, para abraçar a amada. Tudo é feito com muito humor em cena. Para culminar numa grande comemoração: o casamento de Quitéria e Basílio.
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Luciana Almeida, que assina a direção geral, tomou algumas liberdades poéticas com o original. Mas no final das contas o resultado é positivo.
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Só a coragem de levar aos palcos uma coreografia de Marius Petipa merece aplausos. O artista nasceu em Marsellha. Bailarino e coreógrafo. No início da sua carreira, foi bailarino principal em Paris e em Bordéus. Andou em digressão com o pai pelos EUA, dançou e coreografou trabalhos em Madrid (onde estudou dança espanhola) e atuou várias vezes com a bailarina austríaca Fanny Elssler. Em 1847, foi para São Petersburgo como bailarino principal do Teatro Imperial, coreografando aí o seu primeiro trabalho em 55. Em 62, depois do sucesso de “A Filha do Faraó”, foi nomeado primeiro mestre de bailado do Teatro Imperial. Antes de se retirar, em 1903, criou mais de 50 bailados completos. Petipa foi o mais importante construtor da escola russa de bailado.
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Graças ao Arteviva, ele renasce nos palcos da região. E isso não tem preço.
claudioalcantara@pop.com.br |