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Olho Vivo
Como teatro, chega a ser ‘ingênuo’

‘Eva e Adão’ faz rir em alguns momentos, mas deixa a desejar
como ‘show de bolso’ de olho no tom popularesco
Divulgação
Diário OnLine
Cláudio Alcântara

OK, há prós e contras em transformar teatro num veículo popularesco. Teatro não é tevê, as linguagens são diferentes e o conceito de arte também deveria ser. Não é o que acontece na maioria dos espetáculos que se propõem a divertir aquele público não muito acostumado a acompanhar as artes cênicas ao vivo. Pois é, “Eva e Adão”, que esteve em cartaz terça-feira no Gacemss (Grêmio Artístico e Cultural Edmundo de Macedo Soares e Silva), em Volta Redonda, é o que se convencionou chamar de “show de bolso”. Aquele feito, como direi, para faturar uma grana sem muitos gastos com produção. Nada de errado nisso. Todo mundo precisa pagar as contas no final do mês, e sobrar algum para a diversão. O problema é que certas coisinhas não combinam com teatro, e, como tudo na vida, há regras a seguir. “Eva e Adão” é um espetáculo “ingênuo”, neste aspecto. Carece de conteúdo teatral. Sendo assim, deveria ocupar outros espaços, quem sabe alternativos. Teatro não.



Não gosto de coisas assim, o que não significa que “Eva Adão” não tenha lá seu público. O mesmo que gosta de ver o “Domingão do Faustão”, o “Domingo Legal” e o “Show do Tom”. Mas, se a tevê já está lotada de programas popularescos, não há motivo para levar aos palcos o mesmo conteúdo da telinha. Não faz sentido, é desnecessário, e, se estivéssemos numa ditadura, eu diria que deveria ser proibido. Tolice. Vai ao teatro ver espetáculos como “Eva e Adão” quem quer. Aliás, com um título assim, não havia como esperar outra coisa, a não ser humor de duplo sentido e algumas piadas quase chulas.



“Eva e Adão” é um espetáculo criado pela Companhia de Teatro ArteGrimberg. Ficou em cartaz na Casa de Cultura da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, e tem os humoristas Gerson Gomes e Nado Grimberg em cena. O material de divulgação diz que trata o cotidiano de forma bem-humorada, abordando temas dos mais variados, inclusive, a violência. Duda Ribeiro, ator de “Zorra Total”, assina a direção geral e o ator e diretor do Grupo de Teatro do Centro Universitário de Barra Mansa, Ronaldo Danniel, a direção de movimento.



Ribeiro pouco faz para tornar palatável a proposta de “Eva e Adão”. O que ele oferece ao público qualquer diretor de teatro amador de cidade do interior faria melhor. Surpresa foi ver o nome de Ronaldo Danniel nos créditos. Para quem conhece o potencial do rapaz, como eu, é uma decepção. Mas não tinha como fazer milagre com Gerson Gomes (Adão) Nado Grimberg (Eva). Os dois podem até ser bons humoristas, mas um “show de bolso” exige mais que isso. O público ri de algumas situações, é verdade, porque é muito fácil fazer rir do grotesco. Mas fica a perguntinha: Teatro é seguir o caminho fácil? Acho que não.



Resumindo. Surge Adão, um português criado por Deus, num mundo desconhecido e habitado, até então, apenas por animais. Depois chega Eva, uma mulher criada da costela de Adão. E, finalmente, temos a voz de Deus, o criador que pode ser quem ele quiser. Ora é Fausto Silva ora Galvão Bueno, e todas as imitações são muito fracas. Tudo ia muito bem até que Eva resolve comer a fruta do pecado (uma banana, é claro) e então o mundo começa a viver situações que transgridem as leis de Deus. Para interpretar tais situações surgem, a partir de Eva e Adão, personagens vivendo várias histórias. Relação homem e mulher, sexualidade, traição e a própria criação do mundo servem de pretexto para uma serie de cenas supostamente engraçadas.



Analisando o currículo dos humoristas fica a certeza de que eles estão fazendo o melhor que podem. Gomes é formado em jornalismo, odontologia e foi produtor da Rádio 94 FM no Rio de Janeiro. É compositor também. Nado é formado em artes cênicas pela Universidade Estácio de Sá, trabalhou nos filmes “Didi, o Cupido Trapalhão” e “Xuxa Abracadabra”. Os dois trabalharam no “Domingo Legal” e como redatores do programa “Show do Tom”.



Gosto não se discute. Mas não pode: jogar água no público (isso é desrespeito); tratar o teatro como se fosse tevê; subestimar a inteligência das pessoas; insistir com piadas sobre gays (isso é ultrapassado até em “A Praça é Nossa”); e abusar da falta de qualidade no texto. Pode: fazer rir; demonstrar humildade em cena; ter talento para o humor; e brincar com o público na dose certa. É isso. Mas tá valendo.

claudioalcantara@pop.com.br

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