
Teste Gol: cara nova, sucesso antigo
Nova geração do Gol 1.0 8V Total Flex reedita o habitual desempenho honesto do compacto da Volkswagen Pedro Paulo Figueiredo

O Volkswagen Gol mantém uma posição invejável no mercado brasileiro. Vende “que nem pão quente” e lidera o mercado há quase duas décadas. Sua principal atração sempre foi o “VW” estampado na carroceria, que transmite uma imagem de robustez e confiabilidade que nenhuma outra marca conseguiu alcançar no Brasil. E que, justiça seja feita, o carro sempre conseguiu honrar. Problema, mesmo, era a indisfarçável idade do projeto. E o melhor remédio para isso seria um sucessor. Mas, enquanto ele não chega, a Volks faz, de tempos em tempos, a tradicional “plástica”. O chamado Gol Geração 4 é exatamente isso: o carro de sempre, porém com algumas mudanças. Mas, desta vez, as mudanças foram até significativas e deram ao carro um efetivo ar de novidade.
As principais alterações foram adotadas na carroceria e no habitáculo. Os objetivos, claro, são manter o Gol no já tradicional primeiro lugar em vendas do país e torná-lo, na medida do possível, ainda mais apetecível aos mercados externos. Por aqui, foram 117.638 unidades comercializadas entre janeiro e agosto deste ano, volume que deixou o carro da Volks bem à frente dos concorrentes. O Fiat Palio ficou em segundo, com 84.004 unidades, seguido por Fiat Mille, com 76.694 unidades, Chevrolet Celta, com 72.988, VW Fox, com 51.957, Ford Fiesta hatch, com 40.501, Renault Clio hatch, com 22.275, Peugeot 206, com 20.799, e Chevrolet Corsa hatch, com 19.027. E, no mesmo período, já foram exportadas pouco mais de 63 mil unidades do Gol.
Mudar para manter foi, então, a palavra de ordem no “novo” Gol. Por fora, faróis, grade e pára-choque dianteiro foram alterados, assim como a lanterna traseira, que ficou quase vertical e com seções internas arredondadas. O carro ficou charmoso e, curiosamente, até chama a atenção nas ruas, embora seja um modelo absolutamente conhecido. Por dentro, contudo, o Gol efetivamente ficou mais acolhedor. Ganhou o painel do Fox, que é realmente mais moderno - mas, com isso, perdeu o marcador de temperatura -, um tablier igualmente novo e agradável aos olhos e ao toque e até saidinhas de ar estilo “turbina”. Que, no entanto, são bem parecidas com as do Ford Fiesta.
O “recheio” do Gol Plus 1.0 Total Flex, por sua vez, segue o tradicional “padrão” existente para os modelos ditos “populares”. Ou seja, é limitado e os equipamentos e recursos mais importantes são opcionais - quando existem. Vêm de fábrica alto-falantes, aerofólio traseiro, banco do motorista e cintos dianteiros com ajustes de altura, antena no teto, banco traseiro rebatível, brake-light, lavador, limpador e desembaçador traseiro, direção hidráulica, espelhos retrovisores externos com comando interno, imobilizador do motor, lavador, limpador e desembaçador traseiros e vidros verdes.
E o complemento “por fora” é composto apenas por ar-condicionado, trio elétrico, CD player com MP3 e rodas de liga leve. Freios com ABS e airbag duplo, por enquanto, nem pensar.
Sob o capô, o motor 1.0 oito válvulas Total Flex da unidade avaliada faz sua parte para que o conjunto do Gol fique bem equilibrado. O que se traduz em um desempenho adequado e neutro, mas sem espaço para emoções. Não poderia ser diferente: são modestos 68 cv de potência máxima a 5.750 giros e 9,2 kgfm de torque a 4.500 giros obtidos ao se usar somente álcool.
O Gol também mantém sua competitividade quando o assunto é preço. Ainda embalada pelo impacto da novidade, a versão Plus 1.0 8V avaliada, por exemplo, custa R$ 26.639. Completo, porém, vai a bem menos interessantes R$ 39.073. Mas os rivais não ficam atrás: o Fiat Palio ELX 1.0, por exemplo, começa em R$ 28.780, enquanto o Ford Fiesta parte de R$ 28.080 - ambos igualmente despojados de recursos. Ou seja, o Gol tem tudo para continuar sua trajetória bem-sucedida.
Impressões ao dirigir
São remotas as chances de se chamar atenção desfilando por aí a bordo de um carro que existe há 25 anos, vende “que nem banana em fim de feira” há 17 e não mudou efetivamente nos últimos quatro anos. Mas esse feito improvável passou a ser possível no chamado Gol “Geração IV”. Não que se trate de um carro novíssimo. Pelo contrário: é o mesmo de sempre, apenas com as tradicionais alterações estilísticas feitas de tempos em tempos e algumas outras mudancinhas implementadas no habitáculo. Ocorre, porém, que as alterações, desta vez, foram de especial bom-gosto. Por fora, o Gol ganhou um design de efetivos ares de modernidade, oportunamente próximo ao de modelos recentes em mercados externos - especialmente na Europa.
É exatamente por causa desse bem-resolvido equilíbrio que, pelo menos enquanto for novidade, o “novo” Gol chamará a atenção nas ruas. Ninguém pergunta que carro é aquele, mas as pessoas apontam sem cerimônias para o carro, exclamando “olha o novo Gol” ou coisas semelhantes. Reação que só deve ter acontecido quando suas primeiras unidades começaram a rodar, em 1980.
Dinamicamente, porém, não há novidades grandiosas no Gol. O carro mantém seu desempenho equilibrado e honesto, mas sem surpresas. Principalmente na versão 1.0 8V Plus avaliada, cujo motor de 68 cv de potência máxima a 5.750 giros e 9,2 kgfm de torque a 4.500 giros - obtidos com álcool - garante um uso diário correto, mas isento de emoções.
O carro arranca firme, ganha velocidade sem buracos, mas com parcimônia, e exige que o motorista mantenha o motor “cheio” para não perder o ritmo. Depois de “embalado”, o Gol 1.0 8V mantém certo vigor, mas qualquer queda na velocidade exige cambiamento para as retomadas - que, por sua vez, são também modestas, como em qualquer modelo um litro. O modelinho partiu da inércia para os 100 km/h em 13,4 segundos, chegou à máxima de módicos, mas adequados, 160 km/h, e retomou dos 60 km/h para 100 km/h em quarta marcha em aceitáveis 16,9 segundos.
A maior virtude do Gol, portanto, continua sendo a sensação de robustez que transmite. Buracos, costelas e todo tipo de asfalto irregular são superados com galhardia pelo carro, que não mostra qualquer sintoma de que vai deixar pedaços pelo caminho. Na hora de abastecer, os 6,2 km/l obtidos só com álcool não chegam a merecer comemoração, mas também não assustam.
Ficha técnica
Volkswagen Gol Plus 1.0 8V Total Flex
• Motor: Gasolina ou álcool, dianteiro, longitudinal, 999 cc, quatro cilindros em linha, oito válvulas e comando de válvulas simples no cabeçote. Alimentado por injeção eletrônica multiponto. Acelerador eletrônico.
• Transmissão: Câmbio mecânico de cinco marchas à frente e uma à ré. Tração dianteira.
• Potência máxima: 65/68 cv a 5.750 rpm.
• Torque máximo: 9,1/9,2 kgfm a 4.500 rpm.
• Diâmetro e curso: 67,1 mm X 70,6 mm. Taxa de compressão de 10,8:1.
• Suspensão: Dianteira tipo McPherson com rodas independentes, barra estabilizadora, amortecedores e molas helicoidais. Traseira interdependente com barras estabilizadoras, amortecedores e molas helicoidais.
• Freios: A disco ventilado na frente e a tambor atrás.
• Carroceria: hatchback em monobloco com quatro portas e cinco lugares. Comprimento de 3,93 metros, largura de 1,65 m e altura de 1,41 m. Distância entre-eixos de 2,46 m
• Peso: 892 kg em ordem de marcha com 440 kg de carga útil.
• Capacidade do porta-malas: 285 litros.
• Capacidade do tanque de combustível: 51 litros.
Ponto a ponto
• Desempenho - O Gol Plus 1.0 8V não é um bólido, mas apresenta-se corretamente. Os 68 cv de potência a 5.750 giros e o toque de 9,2 kgfm a 4.500 giros fornecem um desempenho honesto ao carro. As arrancadas são firmes, os ganhos de velocidade ocorrem com adequada progressão e sem “buracos” e as retomadas são típicas de um modelo com motor um litro - ou seja, requerem certa paciência. No geral, o Gol 1.0 8V Plus convence mas, como todo “popular”, não empolga. A velocidade máxima de modestos 160 km/h e o zero a 100 km/h cumpridos em apenas esforçados 13,4 segundos revelam seu ímpeto contido.
• Dirigibilidade - O Gol continua exibindo o característico desalinhamento entre volante, bancos e pedais. É verdade que o volante tem boa pegada, o banco é razoavelmente confortável e o câmbio tem engates precisos. Mas dificilmente se fica feliz após algumas horas passadas ali dentro. Pelo menos as respostas dinâmicas do carro são corretas, sem sustos ou limitações naturais precoces.
• Nível de conforto - O motorista encontra uma ergonomia apenas razoável dentro do Gol. Isso apesar dos botões dos vidros elétricos - opcionais - terem sido deslocados do painel frontal para um suporte nas portas - como sempre foi no rival Fiat Palio. Mas o espaço interno em geral é exíguo para todos: atrás, só dois ocupantes têm alguma liberdade. Para completar, a nova alavanca de marchas é menos agradável ao toque, o “recheio” é enxuto e a lista de opcionais, idem. Ar-condicionado e trio elétrico, só “por fora”.
• Consumo - O Gol apresentou desempenho convincente com o tanque cheio de álcool e nem cobrou tanto por isso: fez a média de 6,2 km/l.
• Preço - O Gol Plus 1.0 8V Total Flex custa iniciais R$ 26.639, um valor competitivo diante dos R$ 28.780 do Fiat Palio ELX 1.0 Flex ou dos R$ 28.080 do Ford Fiesta, ambos igualmente enxutos de recursos de série.
• Equipamentos - O Gol Plus 1.0 8V avaliado é legitimamente “popular”: tem preço interessante, mas “descompensa” isso com um “recheio” pequeno. De relevante, traz apenas direção hidráulica, lavador / limpador / desembaçador traseiro e ajuste de altura para banco do motorista e cintos dianteiros. Pouco nesses tempos em que as próprias montadoras dizem que os consumidores estão cada vez mais exigentes. |