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Crônica
Com licença, ela é mesmo poeta?

Evandro Sideral

Sempre tive em minha cabeça a idéia de que poeta era uma pessoa que vivia nas nuvens, cercado de suas ilusões e vaidades. Gosto da poesia que eles produzem, mas deles especificamente nunca me foi despertado tal interesse em saber, como, quando, onde e por que existiam. Atraído pela escassa propaganda do espetáculo "Com Licença, Sou Poeta!", que a autora Elisa Carvalho apresentou no auditório (se é que posso chamar aquele espaço deste nome), deixei de lado a indiferença dos colegas de sala que se negaram a descer para assistir e o descaso da instituição e alguns professores em não divulgar da forma devida este belo trabalho. Fui com a intenção de saber se realmente merecia mesmo esta "licença poética".
Para começar, o ingresso era apenas R$ 1,00. Um valor irrisório. Mais tarde, fui saber que todos estavam com bons patrocinadores que os fizeram chegar até lá e que esta quantia qualquer pessoa podia pagar.
Fiquei sentado na cadeira e não deu vontade nenhuma de levantar e nem olhar para o lado para ver a reação das pessoas, as 52 que contei, até no início da apresentação. No palco Elisa dividia seu trabalho com a platéia, multiplicando sua poesia com a música de Wolney e Margarete Rocha, e somava com a brilhante atuação dos intérpretes do Grupo Intervenções. Não posso destacar nenhum deles em especial, pois todos estavam defendendo de forma magistral os vários estilos textuais da autora.
- Não queremos público, queremos pessoas - ela disse logo no começo, para deixar claro que o encontro seria original e sem cortes, deixando todos, inclusive sua equipe, muito à vontade. E realmente conseguiu.
Este encontro eu tenho a liberdade de denominar de show que conversa diretamente com o interior de cada um. Vários pontos altos no decorrer da peça, principalmente a interpretação da poesia que fez para todos os poemas que ficam guardados dentro das gavetas e das páginas dos velhos cadernos. Lembrei dos meus que há meses estão hibernando lá em casa.
Pouca gente lá fora se deu conta do que estava acontecendo lá dentro. Azar de quem não foi e sorte dos que ainda esperam que eles voltem logo da temporada em outras cidades, pois é, como diz o povo, de correr chão mesmo. Volta Redonda merece trabalhos como este e nós universitários também merecemos.
Tudo o que assistimos foi resultado de muito trabalho e coragem, pois enfrentar o descaso e a indiferença das pessoas com relação à cultura é somente para os grandes idealistas. E ela sabe disso tão distintamente que agora quem pergunta sou eu: Ela é mesmo só poeta? Aquela que vive nas nuvens cercada de ilusões e vaidades? Tenho certeza de que meu conceito mudou totalmente, pois transformar todas as lutas em poesia é tarefa para pessoas sensíveis que ultrapassam este estágio. E, com toda a licença concedida, assistimos à realização de uma verdadeira artista.
Sorte de quem viu e já sabe disso.

evan.sideral@zipmail.com.br

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