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Eriberto Leão usa grandes figuras para criar o Dimas, de “Sinhá Moça”

Jorge Rodrigues Jorge/CZN
Diário OnLine
Maduro: Aos 33 anos, Eriberto Leão já um ator
experiente
Desde muito pequeno, Eriberto Leão aguça um olhar curioso sobre tudo. Já leu autores clássicos - do francês Victor Hugo a Machado de Assis -, viu um sem-número de filmes e conheceu muitas histórias reais, de gente comum. Esta miscelânea lhe empresta, aos 33 anos, uma vasta bagagem cultural. E o ator, além de eloqüente, tem um papo de amplo espectro, que vai da política à espiritualidade. Ultimamente, Eriberto está obcecado por três: Castro Alves, Glauber Rocha e Che Guevara. Três personalidades que o ajudaram a compor o perfil de Dimas, o revolucionário e abolicionista jornalista de “Sinhá Moça”, da Globo. “Eles lutaram para conscientizar o povo. O Castro com lirismo, o Glauber com um olhar libertário e o Che com a luta armada. O Dimas tem um pouco de cada um”, afirma.
Curioso é que Eriberto se interessou pela obra de Glauber e de Castro Alves antes mesmo de saber que viveria um escravo alforriado numa novela. “Fui à Bahia e descobri muita coisa sobre eles. Quando voltei, já estava respirando o universo da novela”, conta, com um brilho nos grandes olhos verdes. Eriberto não acredita em coincidências, mas em sincronia. Acha, por exemplo, que estava predestinado a trabalhar com Benedito Ruy Barbosa mais uma vez. Depois do Tomé, em “Cabocla”, não queria fazer nada que fosse menor - dramaturgicamente falando. “Apareceram coisas para fazer que não tinham a ver comigo. Nem precisei dizer não. Acabaram não acontecendo”, diz ele, com a voz calma, marca de uma personalidade ao mesmo tempo serena e inquieta.
O ator não poupa elogios ao autor de “Sinhá Moça”. “Espero poder trabalhar com ele por muitos anos”, derrama-se. Para Eriberto, Benedito tem o mesmo olhar generoso e devastador dos grandes pensadores. “O amor é a grande revolução. Não adianta tirar a alienação do povo e transformá-lo em agentes conscientes se não existe amor. O Benedito propõe isso muito bem”, avalia.
Talvez por isso o público torça tanto por Dimas. Apesar de ser um vingador e lutar conta o poderoso Barão de Araruna, vivido por Osmar Prado, na verdade o pai do moço, Dimas tem sensibilidade suficiente para declamar poesias e amar. “Tudo é muito importante para o Dimas. Ele gosta de falar, de atuar. Costumo dizer que ele é um bacharel, filósofo e louco. Tem de tudo um pouco”, define ele, que ficou surpreso com as características físicas semelhantes às de Osmar. “Os olhos são da mesma cor, as mãos são iguais e algumas linhas do rosto são idênticas”, enumera.
Ao falar do atual trabalho, Eriberto se anima, tece uma série de teorias, rasga elogios. De alguns anos para cá, depois de ter ficado sumido da telinha em virtude de seu mergulho teatral, o ator descobriu na televisão um veículo ainda mais interessante para fazer a ponte entre o que pensa e o que deseja mostrar ao público. “A arte abre portas, e o público decide se vai entrar ou não. Eu acho que a novela tem esse clique. Não vai mudar o mundo, mas propõe fazer pensar. Fazer tevê é a necessidade de me expressar”, analisa.
A possibilidade de falar para muita gente instigou ainda mais Eriberto neste papel. Dono de uma consciência política bastante crítica, o ator tem postura definida sobre o que deseja para o país e o mundo em que vive. “Nossa luta hoje não tem a ver com a cor da pele. Mas com a ditadura econômica. Se você tem dinheiro e poder é bem-tratado. Se for louro do olho azul, mas pobre, não será bem visto. A exclusão social é a nossa escravidão”, teoriza ele, que detentor de tanta retórica poderia ser político. “Meu partido é a arte e ela é rebelde por natureza. O verdadeiro revolucionário tem um grande amor no coração”, filosofa.

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