Crônica Contra o amor e... As músicas especiais
Eldes Ferreira
Deveria ser proibido, mas não tem jeito: basta alguém ir embora da sua vida - por iniciativa própria ou enxotada por você - para que fale: “Nunca vou esquecer nossa música...”. Ninguém deveria ser tão baixo assim. Porém, para sorte geral de quem fica, a tal música sempre é muito ruim e melosa. Normalmente é tema de filme, de novela ou de algum comercial (de margarina, de banco ou de qualquer coisa parecida). Portanto, depois que o filme sai de cartaz, a novela acaba e o comercial é trocado por outro, suas chances de ouvir a música “de vocês” são bem pequenas.
E músicas desse tipo nunca tocam em bares, festas e lugares decentes e se tocam é hora de buscar outro bar, uma festa melhor e um lugar menos decaído. Você pode também puxar um coro de vaias e conseguir, na mais legítima democracia, que coloquem outra música. Uma que faça as pessoas rirem, gritarem, xavecarem, tirarem a roupa... Mas que não seja você nem qualquer um de seus amigos e amigas! Deixe isso para quem está mais bêbado, desesperado e em melhor forma.
Pode acontecer também, mas é muito raro, que a música escolhida seja justamente a sua preferida. Aquela que resmunga o refrão sem parar, que tem o CD originalíssimo e até sabe quando e porquê foi escrita. Nestes casos, o golpe é ainda mais baixo. Reclamar, xingar ou negociar outra música nunca funciona. O estrago já está feito. E bem feito! Mas também não é justo que deixe de ouvir sua música preferida só porque uma pessoa-sem-qualquer-importância-na-sua-vida resolveu escolhê-la para se vingar de você. Mas o que fazer, então?
Você só tem uma chance: escolher a música antes dela. E quem escolhe primeiro, anula a escolha do outro. Fácil, não é? E escolher uma música qualquer não é muito difícil. Você pode optar pelo mais novo sucesso da rádio ou ainda uma padrão para todos seus relacionamentos. Sabe, algo com um sucesso eterno? Isso mesmo, uma velharia qualquer que vive em promoção nas lojas. Claro que ela não vai engolir essa escolha de jeito nenhum.
Por vários motivos. Todos porque não foi ela quem escolheu. Se tiver sorte, ela vai ficar ainda mais furiosa e nunca mais vai lhe procurar nem por ordem médica. Melhor impossível! Você salva suas músicas do coração, irrita sua ex com qualidade e ainda posa de grande sensível.
A única contra-indicação deste método quase perfeito é que você realmente acredite que a música escolhida tenha alguma importância, que aquele refrão choroso fale mais de vocês do que admitem e que o amor só existe quando não existe mais. Talvez até acredite no absurdo que foram felizes sem saber. E, quando este tipo de coisa acontece, não tem jeito. A música estúpida que escolheu passará a tocar em sua cabeça sem parar e, quando ouvi-la em algum bar ou numa festa muito ruim, vai chorar, beber e tentar tirar a roupa.
E, se este for seu caso, faça alguns abdominais para não fazer tão feio se ninguém lhe impedir de tirar a camisa.
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