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Marcelo Gleiser tem apenas cinco minutos para falar de
astrofísica no ‘Fantástico’; mas o resultado é positivo
Divulgação
Diário OnLine
Bom: Vôo sobre a Cratera do Meteoro foi o melhor
momento do programa
Jorge Luiz Calife

A série “Poeira de Estrelas”, com o físico e escritor Marcelo Gleiser, é a mais nova tentativa da Rede Globo de passar algumas noções de ciência para o povo que assiste à tevê aberta. São cinco minutos de imagens colhidas no exterior, servindo de ilustração para um comentário feito pelo cientista. O tema é a origem do Sol, da Terra e da vida, segundo a moderna astrofísica, o que deve soar bastante estranho para uma platéia acostumada com o fundamentalismo religioso do mundo feito em sete dias (ou seis, porque Deus também não é de ferro e precisava de um dia de descanso).


Na semana passada, Gleiser foi para o deserto do Arizona, embarcou num balão de ar quente e sobrevoou a cratera do meteoro, enquanto falava sobre a formação da Lua. Lembrou os melhores momentos da clássica série “Cosmos”, com o Carl Sagan, mas é bom não tentar comparações. Sagan tinha uma hora inteira para desenvolver seu raciocínio e recursos bem mais vastos do que Gleiser e seus cinco minutos. E até que ele resumiu bem, falando sobre o passado violento do sistema solar, a ameaça dos asteróides e contando como a Lua parece ter surgido de uma colisão entre a Terra e um planeta do tamanho de Marte.


E terminou prometendo falar sobre a origem da vida no próximo capítulo, afinal, a Gloria Maria estava aflita querendo mostrar matérias muito mais importantes, como a festa de aniversário da Xuxa. Na Globo sempre foi assim e nem o Carl Sagan, com todo o seu prestígio, conseguiu mudar o quadro. Quando estreou na televisão, em 1980, “Cosmos” foi um fenômeno de audiência no mundo inteiro. A Globo colocou a série de madrugada, por volta de meia-noite e meia, uma hora de segunda-feira, depois da novelinha americana “Dallas”, que era a mania do povo naquela época. Só mesmo os estudantes universitários interessados no assunto ficavam acordados para assistir ao programa numa época em que ainda nem existiam aparelhos de videocassete. Ou seja, se você não visse na televisão, não via mais.


Depois, muito tempo depois, “Cosmos” ganhou uma edição em VHS, muito cortada e editada, e finalmente foi restaurada a sua forma original na edição em DVD, comemorativa dos 25 anos do programa.


Assistindo hoje a este precursor dos programas científicos da tevê, nota-se que alguma coisa ficou datada. Principalmente as cenas em que o astrônomo aparece “pilotando” uma espaçonave imaginária numa viagem através do tempo e do espaço. Comparado com os efeitos especiais modernos, a nave do Sagan está mais para o cenário do programa da Xuxa. O melhor de “Cosmos” é quando o dublê de astrônomo e apresentador viaja pelo mundo. Para falar sobre a Teoria da Relatividade de Einstein ele foi para a bela cidade de Toscana, na Itália. A seqüência sobre a Biblioteca de Alexandria foi filmada no Cairo, bem perto da verdadeira Alexandria. E a parte sobre Copérnico foi feita na Polônia.


Mas em matéria de efeitos especiais ninguém superou ainda a “Viagem aos Planetas”, feita pela BBC de parceria com o Discovery Channel. Lançada em DVD no Brasil com o título pouco original de “Odisséia Espacial”, “Viagem aos Planetas” foi apresentada em capítulos, muito editados, pelo “Fantástico”, um pouco antes da atual “Poeira de Estrelas”. Resumindo o conhecimento moderno sobre o sistema solar, a produção da série foi ao deserto de Atacama e voou num jato russo, IL-76, para simular a ausência de gravidade. Um show, que o “Fantástico” reduziu a cinco minutos semanais.


“Poeira de Estrelas” fica no meio termo entre “Cosmos” e a “Viagem aos Planetas”. Os efeitos especiais se resumem a imagens tiradas de filmes de arquivo, mostrando os eventos cósmicos e as cenas históricas. No último capítulo foi mostrado o lançamento do Gagarin, as imagens feitas pelas naves Apollo na Lua, e algumas simulações da queda de um meteoro e da formação da Lua. E as viagens ficam mais ou menos restritas aos EUA, para não encarecer muito a produção.


Mas o resultado é positivo, afinal, pelo menos durante cinco minutos a televisão aberta deixa de falar bobagens e se ocupa de temas menos fúteis do que a vida pessoal da Maria das Graças Meneguel ou as preferências sexuais de atores e atrizes. Resta esperar, que num futuro próximo, “Poeira de Estrelas” siga os passos de “Cosmos”, ganhando uma edição em DVD, sem a edição frenética da televisão.

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