Iniciativa tenta recompor fauna de peixes do Rio Paraíba do Sul
Lançados 18 mil alevinos de três espécies nativas, que devem equilibrar a cadeia alimentar do manancial
Felipe de Souza
 Na água: O prefeito Anchite (sentado) inicia o lançamento de peixes no Rio Paraíba do Sul Barra do Piraí
Na tentativa de recuperar a fauna de peixes e manter o equilíbrio da cadeia alimentar, a Light lançou ontem – Dia Internacional da Floresta – 18 mil alevinos no Rio Paraíba do Sul, em Barra do Piraí, em alusão ao Dia Mundial da Água, comemorado hoje. Sob um sol escaldante de meio dia e meia, parte dos filhotes de Piabanha, Pirapitinga-do-sul e Lambari-do-rabo-amarelo foi solta no encontro do Paraíba do Sul com o Rio Piraí, tendo como principais testemunhas estudantes da rede municipal de ensino. A maior parte dos alevinos foi lançada na Barragem de Santa Cecília.
A iniciativa, que contou com o apoio da prefeitura, de acordo com Luiz Antônio Braga, gerente de Meio Ambiente da Light Energia, representa o cumprimento de uma das etapas do projeto PISCES II de Pesquisa e Desenvolvimento, voltado para a recuperação da fauna de peixes nos reservatórios da empresa.
O projeto, feito em parceria com a equipe do laboratório de Ecologia de Peixes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, desde 1998, monitora a fauna, avalia a possibilidade de implantação de abrigos artificiais que permitem o aumento da taxa de sobrevivência dos peixes e repovoa os reservatórios com espécies nativas da bacia do Paraíba do Sul.
Na avaliação do prefeito José Luiz Anchite (PMDB), “até que enfim a Light desceu do pedestal do lucro, para tomar iniciativas de amor à natureza”, disse, referindo-se que a atitude da empresa é uma forma de compensar os impactos ambientais provocados pelas barragens. Ele entende que não se trata de nenhum gesto de generosidade, mas de necessidade.
De acordo com a direção da empresa, pelos reservatórios da Light passam 96% da água consumida pelas populações da capital e de municípios da Região Metropolitana do Rio. Deste total, 85% são provenientes do Rio Paraíba do Sul e 11% do reservatório de Ribeirão das Lajes, localizado nas cidades de Piraí e Rio Claro. É da Barragem de Santa Cecília que é captada a água que abastece as residências da maioria da população do Estado.
Segundo a secretária municipal de Meio Ambiente, Madalena Sofia Avila, o projeto vai fazer com que as crianças e adolescentes sejam os principais defensores do rio, além de contribuir para evitar a pesca predatória. Ela observou, entanto, que atualmente os dois mananciais estão com alto grau de poluição. “Mas esses rios têm um forte potencial de regeneração”, ressaltou, lembrando que a comunidade barrense está cultuando uma nova mentalidade ambiental.
Reminiscências, tristeza e saudade
A propósito do desenvolvimento desenfreado, o Rio Paraíba do Sul vem sofrendo, ao longo dos 400 anos, com a ação do homem. Milhares de famílias que residiam às suas margens praticamente sobreviviam da pesca. Hoje, na avaliação do professor Francisco Gerson Araújo, da UFRRJ, o rio está muito degradado pelo volume de dejetos que foi jogado no seu leito, sem contar os desmatamentos de suas margens.
Para se ter uma idéia do nível de poluição do rio, só para ficar em um exemplo, é comum o acúmulo de lixo orgânico misturado com material plástico e latas nas pilastras da ponte do distrito Vargem Alegre. Ali também, a comunidade não tem noção da necessidade de preservação e cuidados com o manancial, chegando a despejar o esgoto sanitário em suas águas.
Pesca – Sem saberem ao certo o que provocou a escassez de peixes no Rio Paraíba do Sul, os moradores mais antigos lembram muito bem dos tempos em que a Piabanha era um tesouro e era pescada em abundância. Essa espécie já esteve à beira da extinção, mas começa a ser pescada de novo nas águas de origem. As escamas prateadas são as principais características da piabanha, cujo peso chega hoje a, no máximo, 2 quilos.
Na época em que a maioria dos brasileiros ainda vivia no campo, a bacia do Rio Paraíba do Sul era uma das mais piscosas da região Sudeste. Os rios estavam absolutamente integrados às comunidades como grandes fontes de vida.
Entre os peixes cobiçados pelos pescadores, o maior troféu era a piabanha, prima bem próxima do amazônico matrinxã e da pantaneira piraputanga. Boa de briga, quando fisgada, salta para fora da água e puxa a linha com força, resistindo bravamente à captura e exigindo destreza do pescador. Na panela, apesar de ter muito espinho, é carne de primeira.
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