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Pastores lançam projeto para fiéis só consumirem produtos de evangélicos
Será criado um banco de dados com o cadastro de empresas de evangélicos e fiéis serão estimulados a consultá-lo; Igreja Católica critica projeto
Felipe Vieira
 Encontro: Pastor Carlos Roberto apresenta projeto para fiéis em evento na Ilha São João,em Volta Redonda
Felipe Vieira
 Evento: Lançamento de projeto, na Ilha São João, teve até apresentação de peça de teatro Gabriel Araújo Volta Redonda
Depois do crescimento no número de fiéis, os evangélicos querem agora ganhar espaço no meio empresarial. Um grupo de 42 pastores lançou anteontem à noite, na Ilha São João, um projeto para estimular que evangélicos só comprem de evangélicos. Para isso, as igrejas da cidade criaram um cadastro onde empresários da religião podem inscrever suas empresas. Os fiéis serão estimulados nas igrejas a consultarem este banco de dados sempre que precisarem de algum serviço.
- A nossa intenção é estimular evangélicos a consumirem dos próprios evangélicos. É um projeto para empresários, para reis – afirmou o presidente do projeto Vanderson Fernandes Pereira, referindo-se ao nome do projeto “Reinar”. “A bíblia se refere aos empresários como reis”, disse.
Antes mesmo do lançamento oficial anteontem, o banco de dados já tinha 47 empresários inscritos. A meta é atingir mais de 100 empresários cadastrados até o final do ano. Para participar, os empresários precisarão do aval dos pastores que comprovarão se a pessoa é ou não praticante daquela igreja.
O presidente do projeto já trabalha também com a formação de pacotes por nicho de consumo, agrupando as várias empresas de evangélicos.
- Já temos um pacote de noivas, onde vamos oferecer todos os serviços como cabeleireiros, buffet, fotógrafo, entre outros. Outro pacote que estamos formando é o de construção civil - explicou.
O projeto prevê ainda o lançamento de um site na internet. A intenção do cadastro é conter o maior número de serviços possível. Além de empresários, os evangélicos querem cadastrar também trabalhadores autônomos.
O lançamento oficial aconteceu com um evento aberto também aos fiéis. Antes, no entanto, foi apresentado, há duas semanas, para um grupo de pastores, em uma reunião no estádio Raulino de Oliveira. Vanderson Pereira afirma que o “Reinar” tem a adesão de todas as denominações evangélicas da cidade. Segundo o presidente, o projeto está aberto ainda para empresas e pessoas que não sejam evangélicas, apenas na condição de compradores. Para serem cadastrados como vendedores, os não-evangélicos terão de receber o aval do conselho de pastores do projeto.
Para chamar a atenção dos fiéis, o evento de lançamento, ocorrido na Ilha São João, contou com a presença de bandas e cantores famosas no meio. Segundo os organizadores, mais de 15 mil pessoas compareceram ao evento.
Balcão de empregos religioso
A outra ponta do projeto é a criação de um balcão de empregos para fiéis da religião. Segundo Vanderson Pereira, o “Reinar” quer criar um banco de dados para evangélicos desempregados. “Pretendemos criar cursos de formação profissional para estas pessoas e fazer com que os empresários evangélicos adotem estas pessoas para depois lhes garantirem um emprego”, explicou.
Outro serviço que o projeto terá, será um “clube de vantagens” onde as empresas e prestadores de serviço cadastrados poderão ter acesso a descontos em serviços como odontologia e saúde. Dentistas e médicos cadastrados também são, preferencialmente, evangélicos.
Igreja Católica afirma que prática é maneira de forçar escolha religiosa
O vigário geral da Igreja Católica, diocese de Barra do Piraí-Volta Redonda, padre Bernardo H. Thus, que representa o bispo Dom João Messi, afirmou ontem que a prática de misturar assuntos econômicos com religiosos já existe há tempo entre parte dos evangélicos. Agora, segundo o padre, a prática será apenas oficializada.
Thus criticou a postura, segundo ele, recorrente entre empresários evangélicos que não aceitam a livre escolha religiosa de funcionários. “Algumas pessoas chegam a perder empregos por não serem da mesma religião do patrão”, disse o vigário geral, citando ainda a característica de estado laico (liberdade religiosa) do país.
- É uma maneira de forçar as pessoas a virarem evangélicas. A religião é algo que deve ser escolhido por livre e espontânea vontade - criticou Thus.
O representante da igreja católica também citou trechos bíblicos para refutar o projeto lançado pelos pastores evangélicos. “É algo que vai contra o desejo de Jesus Cristo, que no capítulo 17 de Evangelho de São João diz que todos devem ser um. Todos que se dizem cristãos deveriam ter a prática da caridade como premissa básica, sem olhar a que religião estas pessoas pertencem”, concluiu.
Aciap afirma que protecionismo pode ser prejudicial ao mercado
O presidente da ACIAP (Associação Comercial Industrial Agropastoril), Carlos Alberto dos Santos, afirmou não ser favorável ao que chamou de “protecionismo danoso”, em relação ao projeto dos pastores evangélicos.
- Hoje em dia, é muito comum o sistema de redes entre empresas. Entretanto, com esta prática pode-se criar um protecionismo dividido em nichos de produção, o que pode ser danoso para o mercado. Pode não ser saudável para o crescimento econômico e acredito que podemos encontrar outras formas de desenvolver todas as empresas de um modo geral – afirmou Santos.
O presidente da Aciap citou ainda a relação cada vez maior entre consumo e fé. “A religião é um grande mercado. Jesus Cristo é hoje um ótimo garoto propaganda”, comparou.
Para o presidente da CDL (Câmara de Dirigentes e Lojistas) e secretário de Desenvolvimento Econômico, Jerônimo Pereira, o projeto dos evangélicos não passa de um acordo comercial como outro qualquer.
- É um convênio como outro qualquer, que visa fidelizar os evangélicos na rede de consumo. Acordos desse tipo são a base de quaisquer outros seguimentos comerciais - disse.
* Colaborou Gabriel Menezes
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