|

Política de Saia
05 palavras X 200 mortos Incompetência/Desídia/Leviandade/Ganância/Corrupção
Mirian Masteesouz
Vez por outra não consigo fugir do pessimismo. Pobre povo brasileiro, vive esperando o avião do futuro chegar. No Brasil é assim: tudo é futuro. Tudo é espera, enquanto esperamos no saguão da história, a conversa é sempre a mesma: melhoraremos, somos um país em desenvolvimento, o país das promessas, o país que contém as riquezas de que o mundo precisa, é só esperar, o nosso povo é bravo, seremos desenvolvidos, investiremos em educação, somos a maior fonte de energia do planeta, é só aguardar, resolveremos nossos problemas, é uma questão de tempo, tempo. Somos o país do futuro e essa nave, o futuro esperado, não consegue fixar-se no solo, nunca é presente. E vivemos assim, derrapando na pista escorregadia, molhada de corrupção, incompetência, desrespeito, desleixo, desatenção, descuidado, desgoverno, dês, dês, dês, deslizando desenfreado, sem controle. À nossa frente, depois da pista, a miséria, a fome, a ignorância, o desalento, o descaminho, a desesperança, o desfalecimento, dês, dês, dês e o desastre. O acidente ocorrido com o avião da TAM ressalta cinco palavras: incompetência, desídia, leviandade, ganância e corrupção.
Muito me admira, caros leitores, a visão de futuro dessas nossas autoridades, que previram, nos últimos dias da semana passada, que um acidente aéreo de grandes proporções poderia acontecer naquela região. Essas nossas entidades futurólogas, que previram o acidente depois que ele aconteceu, deveriam ter consultado aquele vendedor, quando há alguns anos, um pequeno avião derrapou na pista de Congonhas, e caiu em cima de sua barraquinha de churrasquinho, ora localizada ali, naquela mesma avenida, a Washington Luís, no final da pista. A companhia aérea envolvida no acidente deu uma nova barraca para o ambulante, mas ele, com medo do futuro, não quis voltar a se estabelecer exatamente no mesmo ponto. Estranho... por quê?
Estranho mesmo foi a repentina aparição do vice-presidente técnico da TAM, Rui Amparo, afirmando que o avião tinha um defeito, mas alegando constar nos manuais do fabricante, que esse tipo de avaria não impede a aeronave de operar. Efeito da declaração: público confuso, revolta contra a Infraero e o Governo Federal amenizada, até o fim das investigações realizadas pelo instituto norte-americano, que ficou obrigado a revelar o conteúdo das caixas-pretas somente para as autoridades brasileiras. Bem, o conteúdo das caixas-pretas mesmo, não de ferro retorcido e equivocado. E com relação ao acidente, ranhuras, reversos, controladores, falha humana, equipamentos desatualizados e outras estórias são apenas conseqüências. Isso tudo pode até ser a gota d’água, não mais do que isso. As causas estruturais do que vem ocorrendo com o setor aéreo nacional estão diretamente relacionadas à falência geral do Estado e é exatamente isto que o governo quer esconder para preservar, como sempre, a sua popularidade. Daí, se desesperarem com as cobranças e reagirem espantados com desculpas esfarrapadas e fazendo ares de “não temos nada com isso”. Nesse sentido, a alma petista se expressou profundamente nos gestos obscenos de Marco Aurélio Garcia, o amiguinho dos ditadores de esquerda, vibrando com o que seria uma boa notícia pra eles, a falha mecânica do avião.
Você ainda lembra dos 154 mortos no desastre com o avião da Gol? E as humilhações nos aeroportos, que se arrastam há mais de um ano? E as irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas da União nas reformas dos aeroportos? E o velho e nocivo loteamento político dos cargos relacionados à administração e controle da aviação civil? E a corrupção na Infraero, alardeada pela imprensa e por congressistas? E a resistência, burra, para privatizar os aeroportos, já que o Estado não pode nem deve operá-los? Alguém ainda acha que havia possibilidade disso tudo (e muito mais) resultar em bem-estar e segurança nos vôos?!
Em tempo, o número de tragédias não aumenta somente no setor aéreo. Nunca, neste país, presenciamos tanta paralisia governamental diante dos dramas vividos pelos cidadãos brasileiros. No campo, o MST e seus aliados empurram, como “bois de piranha”, para morrerem pela “causa”, milhares de pobres arrebanhados nas periferias urbanas. Na cidade, o tráfico de drogas e de armas espalha violência no varejo e no atacado sob os olhares apalermados dos setores governamentais. Nas rodovias, a situação também é gravíssima, são milhares de mortes que poderiam ser reduzidas com estradas sinalizadas, duplicadas e em boas condições de tráfego.
Os tais “movimentos sociais” não aparecem em uma hora dessas para brandir a bandeira da justiça e dos direitos. Acomodados com o dinheirinho com que o governo lhes presenteia.
A “Era Lulla” vai ser lembrada como um dos momentos de maior degradação institucional da nossa história recente. O lullo-petismo sugeriu que o apagão é um sintoma de prosperidade. Em outro momento, descaradamente, propôs relaxar e gozar.
Minha gente, será que resta somente escorregarmos involuntariamente, juntamente com o esquema escorregadio, nesta pista molhada de estranhezas, na esperança de que o futuro esteja seguro no final, mesmo que a realidade aponte para uma tragédia anunciada a cada dia?
E-mail da coluna: politicadesaia@diarioon.com.br
|