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Meninas superpoderosas
Ao contrário do que muitos pensam, lugar de mulher é no palco, mandando ver na guitarra, no baixo e na bateria Reprodução
 No palco: “Las Dirces” será um dos doze grupos formados por garotas que tocam no festival LadyFest Brasil Teclado? Sapatilhas de balé? Piano clássico? Nada disso fez a cabeça de Livia Cordeiro Amorim Caizavara Silva, que, aos dez anos de idade, mesmo com a resistência da mãe, começou a freqüentar aulas de bateria. ‘Ela achou que era fogo de palha, mas, 11 anos depois, eu ainda não penso em parar de tocar. Sempre fui apaixonada por bateria. Meus olhos brilhavam ao ver o instrumento ou ao ouvir alguém tocando’, confessa a garota, hoje com 21.
‘No começo, eu pegava os potes de arroz da minha mãe e, com um par de colheres, acompanhava as músicas dos LPs do Balão Mágico’, conta a baterista, que hoje divide seu tempo entre a faculdade de psicologia e turnês pelo interior de São Paulo com a banda Inlakesh.
Livia faz parte de uma tribo que, desde muito jovem, decidiu fazer rock’n’roll. E, para isso, vale tudo: exigir aulas de música no colégio, conversar com músicos mais experientes ou gastar toda a grana na compra de um instrumento.
Foi o que fez Bya Vantresca, 29, que começou a tocar baixo aos 14. ‘Não trabalhava, não recebia mesada, mas queria um baixo de qualquer jeito. Então, vendi um monte de coisas, minha bicicleta, meu videogame, e consegui comprar um usado sem tarraxas e sem cordas’.
Ana Luisa Souza Aranha de Carvalho, 17, teve mais sorte. Como seus pais sempre ouviram rock, entre outros estilos musicais, quando ela pediu uma guitarra de presente, eles ficaram entusiasmados. ‘Eu já estava tomando algumas aulas e, quando fui comprar a guitarra, a família toda foi junto.’
Garotos endeusam
Se a família muitas vezes apóia, o mesmo não acontece com os garotos. Segundo Kátia Prenholato, 20, guitarrista desde os 17, muitos deles acham que as mulheres não são capazes. ‘Mas, quando eles vêem que uma garota toca bem, ficam endeusando.’ ‘Eles podem não te dar crédito por você ser muito nova ou podem questionar se você tem calo nos dedos, o que comprova que toca guitarra e tal, mas tudo de forma bem-humorada’, afirma a baixista Bya.
‘Estou acostumada a ouvir coisas do tipo: “Nossa, mas você toca forte’. Os meninos costumam achar impressionante uma menina que toca com pegada, que consegue montar e desmontar uma bateria’, completa Livia. Já as meninas, continua, ‘apóiam, dizem que sempre tiveram vontade de tocar, querem saber como é...’
E, se elas realmente querem saber, não é simplesmente comprar um instrumento e sair tocando. Além de paciência, a baixista Rayana Paes, 15, diz que é preciso ensaiar todo dia. Sua colega de banda, a baterista Bruna Barone, 17, concorda. No entanto ela é alvo de reclamações de vizinhos e, por isso, só ensaia durante as tardes.
Plugadas
Enquanto Rayana e Bruna reclamam da falta de originalidade das bandas que dominam as FMs brasileiras, Bya acredita que, pelo fato de as gravadoras estarem com problemas financeiros e a MTV não investir mais em videoclipes, ‘o mercado da música está ficando cada vez mais democrático e globalizado, já que não é mais tanto o dinheiro de marketing que define o sucesso de uma banda’.
Nesse sentido, todas elas colocam a internet, sobretudo por meio do YouTube e do MySpace, como o melhor veículo para a divulgação de um trabalho. ‘Minhas bandas utilizam esses recursos porque é de graça, é “do it yourself’ (faça você mesmo)’, afirma Luisa.
O problema, dizem, é o número limitado de mulheres instrumentistas. Notam-se muito mais delas no underground do que sob os holofotes. Desse cenário alternativo, saíram bandas como Cansei de Ser Sexy e podem ser encontrados, entre outros, grupos como o Dominatrix, liderado pela guitarrista Elisa Gargiulo, uma das organizadoras do LadyFest.
‘Na cena independente, há um espaço maior para nós. Quando vamos para a mídia, temos que ceder: tocar e nos vestir como os homens gostariam de nos ver’, acredita Luisa.
Apesar desta realidade, elas pouco se incomodam. Afinal de contas, o que elas querem mesmo é fazer rock’n’roll. É melhor aumentar o som!
Festival terá 12 bandas
Doze grupos formados por garotas tocam no festival LadyFest Brasil, que rola neste fim de semana. Bandas como Siete Armas, Las Dirces, Dominatrix, Las Juliettes e Fantasmina poderão ser vistas ao vivo e a cores em shows no Centro Cultural da Juventude (grátis) e no Hangar 110 (R$ 12), em São Paulo. Programação e endereços: www.quiteria.com.br.
Mas nem só de música será composto o LadyFest, que surgiu em 2000, na cidade de Olympia (EUA) _no Brasil, é realizado desde 2004. Com o tema ‘Tire Sua Própria Virgindade’, haverá também várias oficinas somente para as meninas, mostra de vídeos e debates.
Segundo a organizadora Elisa Gargiulo, a mulher precisa entender como o seu próprio corpo funciona e usá-lo em favor da liberdade.
Rádio on-line só pra elas
Mundo Rock de Calcinha. Foi este o nome escolhido há cinco meses para um programa de rádio virtual dedicado a divulgar exclusivamente o trabalho de bandas que têm mulheres no vocal, na bateria, no baixo ou na guitarra. Acesse o site: www.mundorockdecalcinha.com (sem o br mesmo).
‘Ficamos de olho nas notícias do mundo rock’n’roll feminino e as intercalamos com lançamentos de bandas e entrevistas’, diz Gisele Santos, 31, apresentadora do programa ao lado de Raquelline Marlusy, 19. ‘Recebemos muito material de bandas independentes’, diz Gisele. Se você tem uma banda de meninas, basta enviar seu material para programa@ mundo rockdecalcinha.com.
Atualizado a cada 15 dias, o site contém dicas culturais, enquetes e links dos programas já gravados. Gisele tem suas apostas: as bandas Vulgarize (www. vulgarize.com.br) e Lipstick (www.lipstick.com.br). A vocalista Meg Stock, da Luxúria (www.bandaluxuria.com. br), foi a primeira entrevistada do programa.
E se você pensa que a audiência do Mundo Rock de Calcinha é formada, em sua maioria, por garotas, se enganou.
Gisele conta que a maioria dos pedidos musicais e das participações em promoções é dos meninos em peso. Definitivamente, não são só as groupies que chamam a atenção dos garotos.
Em algum lugar do passado
Elas parecem ter saído do túnel do tempo com seus vestidos de bolinhas, dancinhas sincronizadas e vocais doces. Misturando um pouco de atitude riot grrrl e do romantismo dos grupos vocais femininos dos anos 60, as Pipettes terão seu primeiro disco, ‘We Are the Pipettes’, lançado no Brasil em dezembro, com nada menos que um ano e meio de atraso.
Formada em Brighton, na Inglaterra, há quatro anos, a banda se inspirou na sonoridade pop criada pelo produtor Phil Spector na década de 60, que abusava das melodias e das orquestrações, e em grupos vocais femininos daquela época, como The Ronettes, The Crystals (produzidos por Spector) e The Shangri-Las.
‘Estamos interessadas na fórmula de três garotas cantando em harmonia, na inocência daquela época, na força das melodias, nos coros. É algo que estava faltando na música pop’, diz Rosay, 21.
Esqueça-se, portanto, das referências básicas de qualquer roqueiro que se preze. Na bagagem musical das garotas não entram Beatles nem Elvis Presley. ‘O rock e o pop são muito dominados pelos homens. Essa música [de Elvis e dos Beatles] realmente não significa muito para nós. Temos um olhar mais abrangente’, completa Rosay.
Retrô
Não é a apenas a sonoridade das garotas que remete aos anos 60. Toda a identidade visual da banda (muito bem elaborada, por sinal) segue essa estética: o figurino, o site, os vídeos e as capas de CDs.
Bem produzidos, os vídeos trazem coreografias fofinhas, cenários vintage e um climão de jukebox. ‘Estar numa banda não é apenas escrever músicas. Achamos importante explorar nossas idéias visualmente. Os figurinos, por exemplo, nos ajudam a criar as personagens. Isso não tem a ver com moda, mas com o conceito da banda em geral. As bolinhas são a nossa representação de um jeito frívolo e divertido’, diz Rosay.
Mas não se engane com o romantismo dos vestidos de bolinhas e das dancinhas meigas. A julgar pelas letras das canções, as Pipettes são, no fundo, bem moderninhas.
Em ‘One Night Stand’ (do disco que será lançado por aqui), por exemplo, elas pedem: ‘Me deixe em paz/ Você é apenas uma transa’. Já em ‘Why Did You Stay’ (do mesmo CD), elas dizem: ‘Por que você ficou?/ Quando eu te tratei daquela maneira/ Eu fui tão cruel’.
Os homens
Isso não significa que elas levantem a bandeira do feminismo. ‘O que fazemos é relatar a maneira como a maioria das garotas jovens que conhecemos sentem. Não vejo uma abordagem feminista nisso. Queremos que as nossas músicas conquistem algum respeito dos homens’, afirma Rosay.
Os homens, é bom destacar, têm um papel fundamental no grupo. Apesar de aparecer pouco, até para manter o bom marketing, a banda The Cassettes, formada por quatro garotos, acompanha o trio em todos os shows, gravações e participa da composição das músicas. ‘Na verdade, não há Pipettes sem Cassettes’, admite a cantora.
Até porque a idéia de montar o grupo feminino inspirado nas ‘fábricas de hits’ dos anos 60 foi de um dos garotos, o baixista Monster Bobby. Ex-DJ em Brighton, foi ele quem convidou as vocalistas e criou o conceito indie retrô das Pipettes.
Se a estética é antiga, as estratégias de divulgação estão totalmente de acordo com o século 21. A banda disponibiliza as suas músicas e vídeos no site e mantém uma página no MySpace.
Graças a isso, o grupo ganhou notoriedade na Europa. Além de uma concorrida agenda de shows em clubes indies, se apresentou em festivais importantes, como os britânicos Glastonburry e Leeds, e neste mês inicia uma turnê pelos Estados Unidos e Canadá.
Puppini Sisters recriam um cabaré dos anos 40
Imagine Beyoncé num cabaré dos anos 40 cantando seu hit ‘Crazy in Love’ numa versão jazzística.
É mais ou menos esse o espírito da cover que o trio vocal inglês Puppini Sisters fez da canção da americana. Liderado pela italiana Marcella Puppini, o grupo, assim como as Pipettes, promove uma espécie de viagem no tempo. Só que, neste caso, sai o rock adolescente dos anos 60 e entra o jazz pop dos 40.
O grupo se dedica a versões vocais jazzísticas de hits pop, mas não se considera um trio de jazz. ‘O que fazemos hoje é o pop dos anos 40. Estamos entre o jazz e o pop rock. Eu, pessoalmente, sou fã de Tom Waits, de Nick Cave, de Dresden Dolls’, conta Marcella.
Além de Beyoncé, já passaram pelo cabaré das Puppini Sisters artistas como Smiths, Blondie, Kate Bush e The Bangles, entre outros. Apesar do nome da banda, as garotas não têm nenhum parentesco. Elas se conheceram na faculdade de música em Londres e já lançaram dois discos (inéditos aqui).
Depois de fazer sucesso no circuito londrino de festas burlescas _com shows, performances de circo, strip-tease e muita gente fantasiada_ elas tocaram nos EUA entre junho e agosto.
Os vestidos românticos acinturados e os batons vermelhos são o look oficial das garotas. ‘É sexy, divertido e diferente’, diz Marcella, que, antes de se dedicar à música, estudou moda e chegou a trabalhar com a estilista Vivienne Westwood.
Para ela, o sucesso de grupos femininos, como as Puppini e as Pipettes, é uma reação à hegemonia indie dos últimos tempos. ‘A cena indie é muito dominada por garotos, acho que as pessoas cansaram.’
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